blogue

Projetos de resiliência - um caso sério.

29 Nov 2016

Resiliência - Capacidade de superar, de recuperar de adversidades.*

 

Por ocasião da primeira tentativa de produção de tomate de variedades regionais, ainda o projeto da regipomo era um embrião, a sementeira de 2015 excedeu as minhas expectativas, resultando numa quantidade de plântulas de tal modo elevada que não havia como escoá-las sem a ajuda de outras pessoas interessadasneste tipo de produto.

Para meu alívio, o Alfredo Sendim interessou-se pelas variedades que tinham sobrado e deu guarida a todas as plântulas em excesso

 

Foi nessa altura que contactei com o projeto da Herdade do Freixo do Meio (ver vídeo no final do artigo).

Situada em Montemor-o-Novo, esta Herdade (um dos atuais fornecedores da regipomo) é um lugar que considero especial, e que merece destaque no artigo de hoje porque se trata de um projeto de resiliência que admiro: tem certificação biológica (porque o sistema assim o exige), mas as suas características (e qualidades) vão muito para além disso.

 

Trata-se, acima de tudo, de um projeto de agroecologia, onde se produz tudo o que faz parte da dieta mediterrânica (com exceção do peixe) de um modo orgânico (no sentido fluido da palavra), natural (de acordo com as condições da região) e estruturado a pensar no bem estar do ecossistema no seu todo.

 

E porquê este destaque?

Porque é, para mim, um exemplo vivo (e bem próximo) da definição de resiliência: é muito difícil resistir neste mundo, com a pressão dos mercados e dos consumidores, sem desvirtuar o caminho vagaroso (e, muitas vezes, penoso) que impõe um sistema como a agroecologia - quem dita as regras neste tipo de agricultura é o ecossistema, e o Homem aprende a trabalhar com ele e a tirar partido do que lhe vai sendo proporcionado pela Natureza. Mas este não é o ritmo da sociedade atual, e é muito difícil manter o equilíbro entre a satisfação dos mercados e dos consumidores e os ciclos naturais da agroecologia.

 

No passado dia 28 de outubro, numa conferência organizada pela Agrobio, Alfredo Sendim fez uma breve apresentação do que se propõe fazer para conseguir prosseguir com os objetivos do projeto: a criação de um CSA (Community Supported Agriculture), que vai no seu 2º ano de aplicação experimental na Herdade.

 

Este tipo de abordagem (conhecida principalmente nos EUA, França e Japão), consiste num compromisso entre o agricultor e os consumidores, que se consideram aqui "coprodutores" por fazerem parte integrante do sistema de produção.

Este compromisso tem como base um acordo em que o agricultor valoriza a produção do ecossistema, atribuindo quotas aos coprodutores, comprometendo-se a zelar por ele de modo que a produção resultante seja distribuída pelos coprodutores; por seu lado, os coprodutores comprometem-se a pagar a sua quota ao agricultor e a escoar eventuais produtos da sua quota que não precisem.

 

Neste tipo de compromisso garante-se ainda qu, em épocas de abundância, o agricultor distribua os produtos em excesso pelos coprodutores, minimizando-se o desperdício, e que, em épocas de escassez ou em situações de catástrofe, os coprodutores continuem a apoiar o agricultor, de modo a que este não sofra (por vezes a ponto de aniquilar a sua atividade).

 

Para que tudo isto chegue a bom porto, é preciso que se compreenda como funciona um ecossistema: os coprodutores não podem escolher os produtos que lhe são fornecidos. Voltam aos tempos dos nossos antepassados: são naturalmente surpreendidos com as delícias sazonais que aparecem com a qualidade do seu próprio tempo.

Mas a comodidade de chegar à prateleira do supermercado e estar lá sempre tudo o que estamos habituados a comprar, neste sistema não existe.

 

Quantos de nós estamos preparados para uma mudança destas na nossa  vida?

* (in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa)

Please reload